Produzir os próprios bioinsumos: a decisão estratégica por trás da SSA Biofarm
Comprar biológicos é uma decisão de manejo. Produzi-los é uma decisão de gestão: envolve investimento, risco, regulação e a escolha de onde o conhecimento vai morar. Como a ASKJ avaliou e conduziu esse passo.

Muitos produtores usam bioinsumos. Poucos os produzem. A diferença não está apenas no custo: está em quem controla o conhecimento, a qualidade e o momento de aplicação. Quando a ASKJ decidiu implantar a SSA Biofarm, em 2020, a pergunta não era técnica. A técnica a família já dominava, depois de 25 anos de testes. A pergunta era de gestão: vale a pena assumir uma operação industrial dentro de uma empresa agrícola?
Este artigo mostra como essa decisão foi tomada, o que ela exigiu e o que ela entregou. É um exemplo de como a governança da ASKJ funciona na prática.
O que estava em jogo
Produzir biológicos significa montar uma estrutura de multiplicação de microrganismos, com controle de temperatura, assepsia, insumos de qualidade e pessoal treinado. Significa também responder por cada lote: viabilidade, pureza, concentração. E significa enquadrar a atividade em uma regulação federal sobre bioinsumos que, em 2020, ainda estava sendo escrita e que continua em consolidação.
Diante disso, as alternativas eram claras. Continuar comprando, com os limites conhecidos: produtos formulados para condições médias, validade contada desde a fábrica, logística longa para um produto vivo, dependência de fornecedores no pico da demanda e nenhum aprendizado retido. Ou produzir, assumindo investimento, risco operacional e responsabilidade regulatória, em troca de autonomia.
Como a decisão foi tomada
- Análise de custo por hectare: comparação entre o preço dos biológicos comprados e o custo projetado de produzir, incluindo estrutura, pessoal e controle de qualidade.
- Escala: a unidade só faria sentido com volume. A parceria com os grupos Arapuá Agro e Santos Agropecuária deu a escala necessária, cerca de 30 mil hectares atendidos, e dividiu o investimento.
- Risco: um lote mal produzido pode comprometer uma safra. A resposta foi investir em controle de qualidade por lote e em área testemunha para validar cada formulação antes de ampliar.
- Regulação: mapeamento das exigências federais e estaduais para produção e uso de biológicos, com a estrutura organizada para atendê-las à medida que fossem definidas.
- Conhecimento: o critério decisivo. Produzir internamente mantém dentro da empresa o aprendizado de cada safra, e esse aprendizado passa de uma geração para a outra.
A decisão foi aprovada pelos sócios com metas e indicadores definidos, e acompanhada ciclo a ciclo. Não foi uma aposta; foi um projeto.
Inovar é evoluir continuamente. Na ASKJ, inovação é adotada quando gera valor para a operação, e cada passo precisa provar esse valor com números.
O que mudou quando a produção começou
Produto fresco. O biológico sai da unidade e vai para o campo em dias, com alta viabilidade dos microrganismos. A diferença de resposta em relação a um produto que viajou semanas é visível no talhão.
Formulação sob medida. Os produtos são desenhados para o Cerrado tocantinense, para o solo e para as culturas da própria operação. Não existe mais a média nacional.
Autonomia técnica. A equipe entende o que aplica, ajusta doses e combinações e aprende a cada safra. O conhecimento que antes ficava no fornecedor passou a ficar na organização.
Previsibilidade. Custo conhecido, abastecimento garantido, sem depender de terceiros no momento mais sensível do calendário, que é o plantio da soja.
Menos agroquímicos. Com biológicos de melhor desempenho e aplicados no momento certo, o número de intervenções químicas por ciclo caiu, e com ele o custo e a carga ambiental da produção.
Inovar apesar da burocracia
Implantar uma unidade de produção de biológicos dentro de uma fazenda exige licenças, registros e autorizações de órgãos diferentes, com prazos que não acompanham o calendário agrícola. Teria sido mais cômodo esperar que as regras estivessem todas prontas. A ASKJ escolheu construir, documentar tudo e organizar a unidade para se adequar a cada etapa da regulação conforme ela se consolida. É a mesma postura adotada na regularização ambiental e no licenciamento das demais estruturas: a lentidão dos processos públicos não é motivo para parar, é motivo para planejar com antecedência.
Reconhecimento e próximos passos
Em 2026, Armin Scherer foi um dos homenageados do BioSummit Reconhece, premiação dedicada a produtores com atuação em agricultura regenerativa e sustentabilidade. O reconhecimento é da trajetória, mas também da decisão: a SSA Biofarm existe porque a gestão da ASKJ aceitou assumir um risco calculado em nome da autonomia.
Os próximos passos seguem o mesmo método: ampliar o portfólio de biológicos conforme os resultados de campo justifiquem, aprofundar o controle de qualidade e compartilhar o que a unidade aprende com outros produtores e com a comunidade técnica. Tecnologia só faz sentido quando gera valor para as pessoas, fortalece os processos e contribui para a evolução do sistema produtivo. A Biofarm é a prova de que esse critério funciona.


